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Danny Bogionne consegue suporte trabalhista e emocional para vítima de tráfico humano no Tinder

A vítima contou sobre a experiência traumática de abusos no canal ‘Sobrevivendo na Turquia’, da ativista Danny Boggione

Reprodução/Instagram

Seio familiar desestruturado, ingenuidade e dependência financeira e emocional. Esses são alguns dos inúmeros fatores que levaram Bárbara — codinome para não identificar a vítima — a ser aliciada para o tráfico humano na Bielorrúsica, país do leste europeu. Na época com 17 anos, hoje com 19, a gaúcha conheceu o criminoso que a levou para uma realidade de agressões, exploração sexual e cárcere privado por meio do aplicativo de relacionamento Tinder, modus operandi que está longe de ser comum.

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De acordo com levantamento do Relatório Nacional Sobre Tráfico de pessoas, realizado pelo Ministério da Justiça e Segurança, há uma mudança na maneira como pessoas são aliciadas para o tráfico humano: páginas da web e aplicativos são atuamente uma das principais formas de atrair vítimas. “Os dispositivos tecnológicos tornaram mais refinada a forma de aliciar, mas também proporcionam um grau mais elevado de controle dos traficantes sobre as vítimas”, aponta o relatório, que indica que 86,4% dos casos entre 2017 e 2020 começaram por relações que começaram por meio da internet.

No caso de Bárbara, os primeiros meses da relação com Bruno Ramirez — que hoje está preso e cumpre pena de 40 anos de prisão em Canoas, no Rio Grande do Sul — pareciam o de um entrelace amoroso qualquer, mesmo que disfuncional. “Nos primeiros meses eu achei que era um relacionamento. Eu dormia no peito dele, ele fazia carinho antes de dormir. Só me chamavam por nomes carinhosos e me levava para passear”, conta a vítima.

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A situação mudou de figura quando a vida pessoal de Bárbara começou a declinar. Em conflito com a mãe com um histórico de três padrastos que contribuíram para uma vulnerabilidade ainda maior da garota, a vítima escutou da mãe após uma briga que se ela não voltasse para casa (pois vivia com frequência ao lado de Bruno), não teria mais casa. O aliciador na época tranquilizou a garota quanto a situação e eles acabaram por passar a viver juntos.

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“Ele dizia que era daddy, que cuidava de meninas mais novas, que não era fiel e que ajudava as mulheres com quem ele se relacionava. Mas eu precisava ajudar no trabalho dele”, diz. O trabalho ao qual o criminoso se referia era exploração sexual. As meninas com quem Bruno Ramirez se relacionava tinha que fazer vídeos de sexo em frente a câmeras em sites pornográficos.

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 O cárcere e a exploração

Nos meses que se seguiram, esse passou a ser o trabalho de Bárbara, que passou a sofrer agressões físicas, psicológicas e ameaças. “Ele tinha uma sala com um sofá preto, câmeras. Eu tinha o catálogo com o que fazer e passava horas na câmera. Eu não estava fazendo dinheiro, os homens gostavam mais das que falavam inglês. Eu fui proibida de falar, tinha que ficar quieta, gemer e ficar de oito a nove horas por dia com um aparelho (anal) que atingia velocidade sobrehumanos. Se eu saísse eu era bem xingada o máximo possível”, comenta.

Nessa situação, a gaúcha tinha o que se classificaria como uma semi liberdade, porém se encontrava fraca emocional e fisicamente. A ativista contra o tráfico humano e influenciadora por trás do canal “Sobrevivendo na Turquia, Danny Boggione, explica que o aliciamento raramente começa pela força física. “A ideia das pessoas acorrentadas no caminhão ou colocadas em sacos pretos é enredo de filme. A maioria dos casos são espelho, a cópia do que aconteceu com Bárbara. É um feito 171, depois elas são trancadas, depois elas têm uma liberdade vigiada como tinha essa gaúcha tinha”, comenta

De acordo com ela, que deu visibilidade ao caso no canal e ainda conseguiu uma rede de apoio para a vítima, o cárcere não acontece apenas a portas trancadas e cadeados, mas também por meio de um jogo psicológico do criminoso com a pessoa. Bárbara era vigiada o tempo inteiro pelo celular ou por meio das câmeras da casa e quando fazia menção em largar tudo, era manipulada sobre como seria recebida e em como uma menina bonita e jovem como ela poderia sofrer na rua. “No Brasil nunca tentei fugir, ele quase nunca me deixava sozinha. Ele me via online e podia me ver fugido, assim ele automaticamente sabia que deveria me procurar. Caso eu saísse só com a roupa do corpo, todos os meus documentos estavam com ele”, relata.

 O tráfico

Bruno Ramirez chegou a propor que Bárbara fosse aliciadora de mulheres. “Eu nunca concordei. Eu só não queria mais apanhar. Eu não tinha vontade de nada, eu só tinha medo de apanhar, medo de sentir dor, medo era o único sentimento que me despertava algo”, comenta Bárbara que à época já estava sob forte depressão.

Em 2020, o criminoso decidiu que iria para a Europa aliciar mulheres estrangeiras, pois as brasileiras não eram lucrativas e Bárbara deveria ir junto para ajudar. “Eu fui por medo”, aponta a vítima, que viveu mais meses de exploração, falta de comida e violência. Que só acabou quando ela conseguiu fazer contato com a mãe “Eu fingi estar me maquiando porque ele não ligava para essas coisas. Tracei um plano, mesmo sem documentos ou dinheiro. Peguei 100 dólares que ele tinha para emergência e quando fui andar na rua com ele, corri para o primeiro táxi que apareceu”.

Bárbara foi recebida pela embaixada de Minsk onde recebeu suporte temporário. A volta para o Brasil foi paga pela família da vítima. Já o criminoso foi preso dois meses depois e extraditado para o Brasil, onde hoje cumpre 40 anos de prisão em uma penitenciária do sul do país.

 Sequelas

 Bárbara aponta que hoje vive com medo do mundo e enxerga nela mesma detalhes do agressor. “Ele me treinou, o queixo pra cima, o jeito de sentar, o tom de voz, tudo ele me ensinou. Hoje ele tá na cadeia, mas continua dentro da minha cabeça, em mim, na forma como eu me sento, cruzo as pernas. Ele se entranhou dentro de mim”, relata.

Como boa parte das vítimas de abuso e exploração, hoje Bárbara luta para ver o mundo com outros olhos. “Eu sinto o lado ruim das coisas, do mundo, acabo me sentindo diferente das outras pessoas, como se eu tivesse um passado que não pudesse compartilhar”, desabafa.

Por meio do canal de Danny Boggione, a vítima conseguiu uma recolocação no mercado de trabalho, bem como atendimento psicoterapêutico gratuito. Para a criadora do canal “Sobrevivendo na Turquia”, essa é uma maneira de ressignificar a vítima e dar outra perspectiva de vida após tanta dor.

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