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O Poço é filme impactante que pode ser analisado de diversas formas

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Alguns filmes precisam ser digeridos com muita reflexão antes de se chegar a uma conclusão. O Poço é um desses filmes. Tido como suspense e terror, o filme espanhol conta a história de Goreng, que decide por conta própria entrar em uma prisão misteriosa chamada de poço, da qual poucos saiam. A prisão, estruturada de forma vertical, contava sempre com dois detentos por andar, com um grande buraco no meio, e em determinado horário uma plataforma suspensa baixa de andar a andar com comidas, estacionando um tempo e continuando a descer. Obviamente, quem está em cima come mais e melhor, e em baixo menos e pior. Se a comida tenta é retirada sem ser comida, há uma penalização bem ao estilo de Pavlov. E para completar as interessantes regras, cada detento pode entrar com um objeto, seja qual for, no Poço, e de tempos em tempos, todos os detentos são anestesiados e acordam em outro andar, acima ou abaixo, de forma totalmente randômica.  

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Antes de mais nada, é preciso admitir que a premissa do filme é tão original que o mesmo acaba por chamar a atenção. Os estudiosos de direito penal chegaram a idealizar diversos tipos de prisão, e ver essa prisão vertical distópica é digna de um estudo de sociologia à parte, e talvez seja justamente por isso que o filme acabou se tornando tão conhecido em tão pouco tempo: sua imprevisibilidade e sua originalidade juntas, fazem com que o público não deixe de prestar atenção por um minuto. 

A trajetória de Goreng, que inicia sua jornada ao lado de Trimagasi, um velhinho idiossincrático que fala “Óbvio” para tudo contrapõe, de partida, duas formas de ver o mundo. Por um lado o pragmático idoso, que explica as regras sem se apegar ao colega, mas sem revelar demais, e cujo objeto de escolha é uma faca afiada se distancia diametralmente de alguém que entra por livre vontade em um lugar saído de um pesadelo com um livro nas mãos. E não qualquer livro, Dom Quixote de Miguel de Cervantes, deixando claro ser um idealista que combate moinhos de vento pensando ser gigantes. A rotatividade de parceiros e de andares vai apresentando ao público diversas formas de ver o problema da prisão (ou o mundo), se pensado de uma forma mais expansiva a questão e nesse momento o filme mostra ter tantas camadas quanto o poço tem andares. Filosofia pura.  

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Outro detalhe que merece ser melhor explorado é a questão da comida. A refeição desce para o primeiro andar sem dever nada a qualquer restaurante chique ou hotel cinco estrelas, tanto que é mostrada logo no começo uma cena na qual se demonstra um esmero na produção totalmente desconectado do que é a prisão, e demora um tempo para se juntar as duas peças. E esse grupo de chefs prepara, dentre as iguarias, sempre comidas que são tidas como sendo a comida preferida, ou dos sonhos, de cada detento – pergunta essa que deve ser respondida na entrada do pesadelo. Em um filme tão simbólico, a comida favorita é claramente um ideal ou sonho a ser perseguido, e que pode, em um alinhamento de estrelas acabar chegando a quem sonhava – e duas pessoas raramente tem o mesmo sonho. Sonho ou pesadelo, vista a deterioração da mesa de alimentação nos andares inferiores, quando até a luz parece sumir e seus habitantes parecem demônios, remetendo a Dante e aos seus círculos infernais: quanto mais se desce, mais pune. E quem lá entra, dificilmente é o mesmo de quem sai.

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Como um dos personagens diria, o filme para muitos trata de uma crítica social: óbvio. Afinal de contas, a primeira leitura é que quem está em cima despreza e humilha quem está de baixo, e por aí vai. Mas a crítica social está longe de ser a única, pois o sacrifício da entrega e da luta pela justiça é algo que claramente pode ser visto como uma abordagem espiritual. O final, de maneira poética, acaba evocando o mito grego da caixa de Pandora, com a última coisa que se esperava na caixa, e como após ver todos os terrores do mundo, o homem fragilmente se apega a qualquer centelha de esperança que aparece. Um filme que pode ser visto com muitas lentes: filosófica, espiritual, social, criminal, mas que acima de tudo deve ser visto, sendo uma belíssima produção de baixo custo que a Netflix trouxe para seu catálogo com muita felicidade.

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Escrito por Bene!

Um curioso acima de tudo. Amante das artes, busco viver sem rótulos e explorar o que a alma pede. Escrevo sobre o que gosto, amo, odeio, me faz pensar e me faz sentir. Espero que minhas ideias, palavras e ações sejam meu legado. Bem vindos e espero que gostem.